A ópera sob o ecletismo brasileiro


 

A ópera sob o ecletismo brasileiro

 

XI Festival Amazonas de Ópera estreará obra de Edmundo Villani-Côrtes

Inicia-se em Manaus (abr.2007) o XI Festival Amazonas de Ópera (FAO). Entre diversos espetáculos, algo de suma importância para a nossa cultura musical: a estreia encenada de uma ópera composta por um compositor brasileiro em plena atividade criativa. Trata-se de “Poranduba”, de Edmundo Villani-Côrtes.

…É na expectativa da primeira encenação de sua ópera “Poranduba”, no XI FAO, que Villani recebeu a Gazeta Mercantil para um descontraído bate-papo musical. Em sua linguagem composicional você frequentemente utiliza elementos música popular brasileira, e muitos o associam à corrente Nacionalista, tendo inclusive sido aluno de Camargo Guarnieri. Afinal, como você entende sua música?

A composição pra mim sempre foi apenas um meio de me expressar. E ao ouvir as músicas dos outros, algo que gostasse, sempre desejei em fazer algo parecido ou mesmo melhor. E aí me dedicava a estudar, a entender aquela música. Talvez seja uma atitude quixotesca de minha parte, mas acontece que o que componho é o resultado de uma necessidade de expressão. Algumas vezes esta forma de expressão me leva a fazer uma música mais dissonante em função daquilo que quero expressar. Às vezes faço uma coisa muito simples. Mas nunca fui de prender-me a uma escola. Em relação ao Nacionalismo, nunca estudei nada de folclore, nunca pesquisei nada e não me considero um Nacionalista. Se eventualmente os recursos que utilizo coincidem com esta escola é algo puramente casual. E mesmo meu relacionamento com Camargo Guarnieri foi muito breve. Tive poucos meses de aula como ele, pois tive que interromper meus estudos para ganhar a vida como pianista de música popular.

Villani-Côrtes por Mônica Côrtes

Villani-Côrtes por Mônica Côrtes

Como você vê as tendências da música de vanguarda da atual?

Eu me vejo de uma maneira muito simples. A pessoa que tem talento é que nem erva daninha: você corta aqui, ela nasce logo adiante. Não adianta querer destruí-la. Quando a pessoa tem talento ela pode fazer qualquer tipo de música. Não tem estilo que vai limitá-la. Tem compositores que como não têm muito o que dizer, abraçam a composição apenas como status cultural, ficam se preocupando em achar qual escola está na moda. Acho inclusive que existe muita gente fazendo isto.

O que tinha em mente ao compor a música para “Poranduba”?

Acho que o mais importante é que a música que coloquei nesta partitura é uma visão minha, particular e imaginada de música amazônica. Eu não ia cometer a loucura de entrar na floresta, ouvir os cantos da Amazônia e viver na floresta para pode fazer uma ópera, pois de jeito algum iria conseguir entrar no verdadeiro espírito de um indígena. O índio que coloquei nessa ópera é um índio que tenho dentro de mim, e vou fazer a música deste índio do meu jeito. Podem até me acusar de que infidelidade ao material folclórico, mas é também falso pegar um material destes e fazê-lo de uma forma diferente da originalmente realizada por estes povos. Procurei extrair um primitivismo de mim mesmo, e acho que foi mais ou menos isto que Stravinsky fez com a “Sagração da Primavera”, isto é, baseado mais nas vivências pessoais dele do que de fato realizado utilizando materiais provenientes dos povos antigos aos quais o balé se refere.


 

por Leonardo Martinelli – 20.abr.2007

(Este texto é a versão do autor sem cortes, sem edição e sem revisão)