Edmundo: simplesmente criativo


Edmundo: simplesmente criativo

por Affonso Romano de Sant’Anna

 

Agora é 1956 e estou vendo Edmundo Villani-Côrtes tocando o seu Concerto para Piano e Orquestra no Cineteatro Central de Juiz de Fora.

Ele tem 26 anos e mora ali na Rua Doutor Romualdo, 429. Acho que é esse o número. (Vou ligar para ele daqui a pouco e pedir essa e outras confirmações para reativar lembranças e vivências.) O fato é que estou escrevendo este texto, proustianamente, em 1956. Tenho 19 anos e moro, na Rua Padre Thiago, 64, ao lado da rua de Edmundo, ali no bairro de São Mateus.

Passando diante de sua casa, às vezes, ouço um piano. Eu o vejo também passando por mim na rua. Mais velho sete anos que eu, ele é colega de turma de meu irmão Carlos, lá no Granbery – colégio histórico e mítico, que teve como alunos tanto o ex-presidente ltamar Franco (contemporâneo de Edmundo) quanto o ex-guerilheiro Fernando Gabeira, meu contemporâneo. Edmundo tem até um apelido – “Careca” – porque, já meio original, raspou a cabeça, quando a moda que surge nesses anos 50, é justamente o oposto – a do topete, gomalina ou glostora, com Elvis Presley e tudo em cima.

Villani-Côrtes |ft. Paulo Popó|

Villani-Côrtes |ft. Paulo Popó|

Mas (retomando o primeiro parágrafo), estou de novo vendo Edmundo sentado ao piano nesse majestoso Cineteatro Central. Aos meus olhos de adolescente ele é um Tchaikovsky, um Rachmaninov, um Chopin que arranca sonoridades românticas e patéticas acompanhado pela Sociedade Filarmônica de Juiz de Fora regida pelo maestro austríaco Max Gefter.

Essa sala de espetáculos é bonita e das mais surpreendentes. Imensa. Imponente. Foi construída quando a cidade era um dos principais pólos industriais do país. Os artistas que aqui vêm ficam impressionados que fora das grandes capitais exista um teatro com essa capacidade e beleza. Os turistas ficam boquiabertos. “Aqui outrora retumbaram hinos”, poder-se-ia dizer como Raimundo Correa, lembrando cenas de um passado histórico mineiro em Ouro preto. Nesse teatro, adolescente ainda, me lembra de ter ouvido os grandes cantores do Teatro Municipal nos anos 50: o Assis Pacheco, a soprano Lia Salgado, o barítono Lourival Braga, Alfredo Colósimo e outros, interpretando óperas como “O Fausto” de Gounod, “O Trovador” de Verdi, numa histórica temporada, que fez com que os mais ricos e sofisticados das cidades vizinhas da zona da mata, tirassem do baú suas roupas de gala para virem a essa temporada que maravilhava nossos olhos e ouvidos provincianos.

Aqueles eram tempos em que minha geração lia os sete volumes de “Jean Christophe” do Prêmio Nobel Romain Rolland. A biografia imaginária daquele músico nos fascinava. Ali narrava-se a vida de uma pessoa marcada pela fatalidade da criação artística. E imagino Edmundo andando por aquelas ruas e sonhando com uma vida heroica e fatalmente dedicada aos sons. Não é à toa que ele dizia que gostava desde sempre, de subir numa árvore, ficar balançando e ouvindo a música do vento. Assim como para o pintor, tudo o que vê são cores contrastantes e volumes, e assim como para escritor a realidade vem filtrada em palavras, para o músico o mundo é uma reverberação de sons. Deste modo, cada um lê o mundo através do código que o fascina.

Cheguei certa vez a perguntar-lhe o que é que em geral ele lia. E me veio com essa coisa insólita: ele lê para dentro, é como se tivesse dentro de si uma biblioteca e que escolhesse os assuntos de forma sonora e cromática.

Villani-Côrtes |ft. Paulo Popó|

Villani-Côrtes |ft. Paulo Popó|

Nossa cidade, naquele tempo, musicalmente, era ainda desprovida de estruturas apropriadas. Nada podia prever que um dia seria a sede de um dos maiores movimentos de música clássica e barroca, como os cursos e festivais da Pró-Música, liderados pelo casal Maria lzabel e Hermínio de Souza Santos e seu filho premiado internacionalmente, o violinista e regente Luiz Otávio.

Mas, na verdade, passaram-se uns 40 anos. É uma longa travessia de deserto com alguns oásis. Juiz de Fora não é mais aquela cidade tranquila com 100 mil habitantes, com muitos prédios “belle époque”, e que um dia mereceu um poema de Manuel Bandeira no qual descrevia seus “bondes dando voltas vadias” e ainda fazia uma comparação amorosa – “Linda como Juiz de Fora!”. Muita água passou sob as pontes do rio Paraibuna e de outras pontes de nossa vida. De Juiz de Fora, anos depois, em 1964, partiriam as tropas do general Olímpio Mourão, para derrubar o governo de João Goulart.

Edmundo de lá saiu. Eu de lá saí. Edmundo foi para o Rio, para São Paulo. E, de repente, quarenta anos depois, em 2005, reencontro-o no Conservatório Brasileiro, no Rio, para assistir ao “Te Deum” levado com o coro, orquestra sinfônica e quatro solistas. É uma obra majestosa. Nada piegas.

Naquele teatrinho antigo, meio como charme do Rio do princípio do século, assisto encantado a essa peça madura, vibrante, surpreendente, dessacralizadora até, pois Edmundo meteu na partitura alguns elementos insólitos e inovadores.

O carinho que, na plateia, antes e após o concerto cerca o compositor é notável. Alunos, professores e amigos vêm lhe falar e ele com esse ar sempre aberto, sorridente, quase de adolescente conversando com todos.

Coincidência crescente, há poucas semanas o reencontrei na imponente Sala São Paulo (construída nas instalações da antiga Estação Sorocabana), quando foram premiados os melhores da música do ano de 2004. Eu lá fora instado por Maria Izabel e Hermínio para receber por eles, um prêmio merecidamente deles, já que a Pró-Música de Juiz de Fora, se destaca por desenvolver há décadas aquele consistente projeto de difusão e reativação da música barroca e colonial. E lá, naquela sala magnífica, entre tantas celebridades do mundo musical que estão sendo homenageados, lá está Edmundo Villani-Côrtes. Inclusive a orquestra regida por Lutero Rodrigues toca uma de suas peças musicais ao final do concerto. É a “Lenda Caipora”, obra que Edmundo compôs diretamente sobre a partitura para inscrever-se num concurso musical. Escrita para orquestra reduzida, ali estava ampliada e mereceu um entusiástico aplauso da plateia.

Por onde andou meu amigo esse tempo todo, como ele pautou sua vida ou, como a vida, musicalmente, o pautou?

Não é fácil a vida da maioria dos artistas, e quem, por exemplo, quer fazer música clássica (ou poesia) tem que fazer também música popular (e ou jornalismo). Ou, então, fazendo uma coisa ou outra, também dar aulas.

Assim é que, anos atrás, estava eu lá no Jô Soares dando uma entrevista, quando me deparo com Edmundo ao piano do Quinteto Onze e Meia. Ele fez aquele périplo de tantos músicos famosos dentro e fora do Brasil, que tocaram com orquestras de rádio e televisão ou tiveram que dedilhar os pianos de bares e boates. Hoje, dedicado ao ensino e à composição, Edmundo já se liberou desse encargo e está concentrado no seu trabalho criativo.

Me ocorre que por uma série de razões acabei conhecendo e me relacionando com a geração de músicos que se formou em torno dos anos 50 e 60. Por ter cantado no Madrigal Renascentista (criado pelos maestros Isaac Karabtchevsky, Carlos Alberto Fonseca e Carlos Eduardo Prates), acabei vendo de perto o trabalho que se irradiava de Koellreutter na Universidade da Bahia, essa geração que nos deu Cozzella, Rogério Duprat, Julio Medaglia, Olivier Toni e outros, que conheci nesse período.

Edmundo também estudou com Koellreutter, lá pelo ano de 7978. O maestro alemão era radicalmente um vanguardista e experimentalista. Dessa época se originou o “Noneto de Munique”, escrito por Edmundo para o conjunto de mesmo nome que fazia uma turnê pelo país.

Villani-Côrtes |ft. Deise Hattum|

Villani-Côrtes |ft. Deise Hattum|

Mas Edmundo, que sempre preservou sua singularidade, diz que foi estudar com Koellreutter não apenas para aprender coisas novas, mas, também, para “ver o que não deveria fazer”0. Havia naquela época uma tensão entre duas correntes, de um lado o experimentalismo do maestro alemão e do outro o sentimento mais nacional exemplificado em Camargo Guarnieri. Enfim, uma questão que encontra paralelo em outras áreas da criação e da teoria naquela época e que remete pura uma superada questão sobre “fundo” e “forma” ou a viciada oposição entre “experimentalismo” e “participação”.

Se eu ouço o “Concerto nº 1 para piano e orquestra” posso encontrar aí uma variedade criativa, que percorre toda a história da música numa síntese pessoal. Se eu ouço a “Rapsódia Brasileira” ou “Poema Brasileiro”, “Vozes do Agreste”, é toda uma tradição anterior e posterior ao modernismo que ressalta.  Aí está o diálogo não só com Villa-Lobos, mas com Patápio Silva.

E se me ponho a ouvir “Villani in tbe Village”, com a flauta de Celina Charlier e piano de Eshantha Peiris, terei de novo uma formidável síntese de quem se movimenta com extrema facilidade criadora capaz de trabalhar sem vacilos e sem arrogância, mas com domínio maduro da composição todos os ritmos e os mais diversos instrumentos.

Dos tempos em que voltou-se para o magistério e elaborou sua tese de mestrado, Edmundo lembra-se  carinhosamente de Henrique Morelenbaum, cuja característica a ressaltar era o espírito aberto e democrático que permitia ao orientando seguir criativamente seu próprio projeto.

Converso com Edmundo hoje, e a conversa passa pela sua biografia de arranjador e pianista, por essa sua facilidade para compor até sua atividade de professor. Essa sua disponibilidade pata atender tanto a uma aluna que precisa de uma Sonata para violino, quanto o desafio de fazer uma música para uma coisa extremamente desafiadora e antimusical como aquilo que na nossa história recente ficou conhecido como o AI-5.

Exatamente, não estranhem, é o AI-5 mesmo, aquele decreto-lei que, em 1968, botou em letargia a democracia brasileira. “Eu fiz uma música meio sarcástica, um tema meio tonal e atonal, meio marcial. A música fica tocando e a soprano fica mostrando o texto do AI-5, comentando, às vezes ela canta, às vezes ela para”.

Mas a investida musical e política de Edmundo não pararam aí. Duas outras composições igualmente insólitas juntam-se a essa, todas na mesma linha: trabalhar musicalmente e como espetáculo, textos políticos. É assim que “musicou” a Carta Testamento de Vargas e a Carta de Renúncia de Jânio Quadros. (1)

Hoie a obra de Edmundo Villani-Côrtes vai sendo mais amplamente reconhecida e divulgada. Já começaram a surgir diversas teses sobre aspectos específicos de algumas de suas composições. Luciana Harmonde, por exemplo, elaborou a tese sobre o “Álbum de Prelúdios”, Sônia Zanon sobre suas “Peças de Contrabaixo”, já Silvia Barone dedicou-lhe uma tese de doutorado.

Em nossa conversa, indago sobre seu método de composição, já que há artistas que se confessam francamente lógicos e racionais e outros preferem trabalhar intuitivamente. Há aqueles que dizem partir para a composição só depois de terem na cabeça a obra, enquanto outros a vão descobrindo no próprio ato de compor.

Para Edmundo não há fórmula pré-estabelecida, ele trabalha de maneira variada sempre atento à emoção e ao rigor composicional. E quando conversamos sobre essa relação intensa que se tem com o objeto de escolha artística, ele faz uma comparação modesta, mas muito reveladora. Primeiro afirma que a música tem lhe sido muito generosa. Ele só tem a lhe agradecer. É como se fosse uma mulher linda, que pela sua beleza fosse inalcançável. É como se fosse uma dessas modelos deslumbrantes, da qual não esperamos nenhum retorno pela nossa admiração ou secreta  paixão.

De repente, a surpresa: o artista Edmundo reconhece humildemente que tem sido recompensado de uma forma acima de suas expectativas.


 

Affonso Romano de Sant’Anna é poeta, escritor e autor de vários livros

(1)t Lembro-me aqui de algo no mesmo linho do músico participante e de protesto feito por outro músico – Chico Mário irmão do Henfil e do Betinho, que nos anos 80 chamou-me para trabalhar numa “Suíte Brasil”, para a qual ele, compôs também, “Choro Grave” (relativo à queda de Jango), e outros músicos relativos a 1964-1968 e uma “Balada Negra” relativa à repressão de 1971-1974. Aquela obra de Chico Mário tem sido apresentada algumas vezes por seu filho o pianista Marcos Souza e em alguns espetáculos contou com a narração do historiador José Murilo de Carvalho e leitura de poemas de minha parte.


Artigo da coletânea “Música Contemporânea Brasileira – em Registro na Discoteca Oneyda Alvarenga” Centro Cultural São Paulo – álbum E. Villani-Côrtes . 2006