Entrevista com Villani


 

O compositor Edmundo Villani-Côrtes (Juiz de Fora MG, 1930), concedeu esta entrevista para a Revista Aboré na ocasião da estréia de sua ópera Poranduba, em maio de 2007 no Teatro Amazonas, em Manaus, durante o XI Festival Amazonas de Ópera.

 

Aboré – Como se deu a sua formação musical?

Villani- Côrtes – Eu acho que não tive formação musical, eu tive informação musical. Meu pai era flautista amador e a minha mãe tocava piano. Quando eu nasci, meu pai adoeceu gravemente e as finanças da família ficaram arruinadas. Como eu era o terceiro filho, não usufrui dos tempos de bonança. Nesta época, venderam o piano e nunca mais foi possível reavê-lo. Então eu comecei a experimentar a música tocando cavaquinho. Como meu irmão mais velho estudava violão, eu falei ao meu pai que queria tocar um instrumento e ele me deu um cavaquinho. E era um cavaquinho de brinquedo, mas eu afinei como se faz com as últimas quatro cordas do violão que meu irmão tocava. E as aulas com o meu primeiro professor seguiam um sistema audio-visual, pois nós aprendíamos a tocar imitando as posições que ele fazia no violão. O professor chegava e anunciava: Vamos tocar Amigo de Rosas, aquela valsa famosa do Dilermando Reis. E então ele pegava no violão e tocava, e nós observávamos as posições e tocávamos juntos. Não havia o dó-ré-mi-fá-sol, noção de modos maiores ou menores, eu sabia quando a música estava em modo menor pela sensação, pois naturalmente passava pelo acorde de terça menor. A partir deste momento, tudo o que ouvia no rádio e no cinema, tentava tocar no violão. Minhas primeiras influências musicais vieram por meio do rádio, que felizmente, naquela época, não era dominado pelos interesses comerciais. O cinema também me influenciou, pois através dele tomei contato com obras de Chopin, Liszt, Mozart, Puccini e Gershwin, por exemplo. Quando eu tinha dezessete anos, muito encabulado, falei que gostaria de estudar piano e comecei a estudar na casa de uma tia em Juíz de Fora. Depois fui para o Rio de Janeiro e fiz o curso de piano no Conservatório Brasileiro de Música.

Villani-Côrtes |ft. Antonio Rebesco|

Villani-Côrtes |ft. Antonio Rebesco|

Estudei com Guilherme Mignone, irmão do Francisco Mignone. E foi nesse período que eu comecei a tocar profissionalmente na noite, pois ainda não existia a música eletrônica, não havia essa concorrência tão grande de gravações e quem era músico, era valorizado pela música que fazia. Se não tivesse o músico, não havia a música.

Aboré – Como surgiu o interesse pela composição?

Villani-Côrtes – Sempre tive uma certa inclinação para pesquisar sons nos instrumentos e também para analisar as peças que executava. A partir disso iniciei as minhas primeiras experiências na área da composição. Comecei a compor com o violão, mas chegou um momento em que as peças se tornaram mais elaboradas e foi nesse momento que eu comecei a estudar o piano. Eu ouvia uma música e ficava imaginando como poderia modificá-la, achava que ficaria melhor de determinado jeito. É a partir disso que comecei a compor. Fiz isso não por querer ser um compositor, mas por gostar de música. Alguns sons me agradam mais que outros, então eu os escrevo. Eu também trabalhei muito tempo como arranjador porque é uma área em que pagam muito bem. E para a composição não pagam. E até hoje é assim, para ganhar dinheiro, é muito melhor fazer arranjos do que compor. Mas nos arranjos, eu me sentia
frustrado porque no arranjo eu era obrigado a me submeter àquela música, que nem sempre era agradável. De modo que me sinto mais a vontade compondo, pois eu imagino a melodia e faço com ela o que eu quero. No arranjo não existe essa liberdade.

Aboré – O senhor estudou composição com o Camargo Guarnieri? Como foi esta experiência?

Villani-Côrtes – Foi uma experiência válida. O Camargo Guarnieri, indiscutivelmente, foi um músico de altíssimo nível, um dos maiores compositores brasileiros, possui uma obra fabulosa que ainda é desconhecida. O sistema de ensino do Camargo Guarnieri era assim: ele tocava as primeiras notas e dizia «Faz um Ponteio»… mas não explicava o que era ponteio e como deveria ser feito. Eu fazia e depois levava para ele, ele tocava, tinha uma leitura muito boa e então dava as sugestões sobre a composição inicial. Um sistema interessante de ensinar, pois através dele o Camargo Guarnieri passava para os alunos as diretrizes da escola nacionalista na qual ele estava inserido, bem como o modo pessoal de fazer música, que ele chamava de «música brasileira oficial». Acontecia o seguinte: às vezes eu levava uma música, ele fazia as sugestões, eu voltava com a música para casa, fazia as correções, acrescentava as sugestões e levava de volta para ele. Quando começava a aula, ele pegava as partes que havia corrigido anteriormente e dizia, «não está bom, você precisa mudar aqui».

Villani |ft. Luiz Casimiro|

Villani |ft. Luiz Casimiro|

E isso era uma coisa um pouco frustrante, mas não deixava de ser interessante. Entretanto, nesta ocasião eu havia me mudado para São Paulo, já tinha minha família e o que eu ganhava tocando em uma noite, pagava para ter uma aula com o Camargo Guarnieri, e isso era muito pesado para mim. Nessa época apareceu uma oportunidade, para acompanhar a Maísa Matarazzo numa tourneé pela Argentina e Uruguai, e foi o que me salvou financeiramente. Quando retornei dessa viagem, surgiram muitos outros trabalhos e eu não pude mais prosseguir com as aulas com o Camargo Guarnieri. Foi quando eu pensei em fazer uma sonata para violoncelo. Pensei no que eu gostaria de ouvir caso fosse a um concerto de violoncelo. Fiz esta sonata, e pensei, não vou mostrar isso ao Camargo Guarnieri, por que ele vai mexer, e eu quero que fique desse jeito. E a partir disso comecei a escrever o que eu queria. Mas nesse momento, não pude me dedicar muito à composição, pois tinha que trabalhar muito fazendo arranjos e tocar na noite.

Aboré – E como foi estudar com o compositor Hans-Joachim Koellreuter?

Villani-Côrtes – A minha experiência com o Koellreuter aconteceu assim: o maestro da TV Tupi, Bernardo Federowski, convidou-me para lecionar contraponto na Academia Paulista de Música. E os alunos comentavam que o professor Koellreuter tinha chegado recentemente da Índia e estava dando umas aulas. Então eu fui com meus alunos participar da classe de composição dele. Na primeira aula ele disse: «façam uma música com uma nota só e com a duração de um minuto». Nós perguntavamos, mas como? E ele respondia: «apenas façam». E então eu fiz uma peça chamada O Minuto Final, para uma grande orquestra e com a duração de um minuto. Imaginei um soldado numa trincheira na guerra, e ele via o massacre, sabia que ia morrer em um minuto, e nesse minuto ele tinha uma visão de toda a sua vida. A partir desse motivo, desenvolvi o tema com uma nota só, mas usei as oitavas e fui desenvolvendo o ritmo.
O Koellreuter não se entusiasmou muito, pois ele veio ao Brasil refugiado da Guerra. Depois ele sugeriu que eu fizesse outras músicas. Fiz então uma música que chamei de Timbres, e imaginei uma trilha sonora para um filme de terror. Como ele era ligado ao atonalismo e ao dodecafonismo, gostou muito da peça. Nessa época, ele recomendou que eu participasse de um concurso de composição em São Paulo, promovido pelo Intituto Goethe. O concurso chamava-se Noneto de Munique. Compus então uma peça chamada Noneto, que era um quarteto de sopros, oboé, clarinete, fagote e trompa somado a um quinteto de cordas, dois violinos, viola, violoncelo e contrabaixo. Eu ganhei a menção honrosa neste concurso, em 1978. E como estava previsto um recital com as peças premiadas na Alemanha, elas deveriam ser enviadas para a Alemanha para integrar o repertório do grupo alemão chamado Noneto de Munique, que faria uma tournée internacional. Enviei a partitura e fiquei um bom tempo sem ter notícias do Instituto Goethe, e de repente, telefonou-me o Koellreutter da Alemanha, dizendo para que eu enviasse imediatamente a partitura do Noneto, pois tinham enviado uma partitura de um outro noneto que nem havia sido classificado no concurso. A peça não chegou a tempo do grupo ensaiar, eles começaram a tournée sem a peça. O concurso aconteceu em 1978, mas esta peça teve sua estréia em 2004, com um grupo cubano dirigido pela maestrina Elena Herrero. O resultado disso foi que o Instituto Goethe acabou com todos os concursos de composição que aconteciam a cada dois anos.

Aboré Depois disso o senhor chegou a participar de outros concursos? Foi premiado novamente?

Villani-Côrtes – Sim. Em 1986 fui vencedor do concurso de composição patrocinado pela Editora Cultura Musical, com a peça para violão Choro Pretensioso, e segundo lugar com a peça para piano solo Ritmata nº 1. Em 1990 recebi o prêmio dos “Melhores de 1989”, conferido pela A.P.C.A. (Associação Paulista de Críticos de Arte), pela apresentação do Ciclo Cecília Meireles, considerada a melhor composição erudita vocal do ano. No ano de 1993, por ocasião da comemoração do centenário de nascimento do poeta Mário de Andrade, fui vencedor do concurso promovido pela prefeitura de São Paulo, com a composição Rua Aurora. Em 1995 e em 1998, voltei a ser premiado pela A.P.C.A,

Villani-Côrtes |ft. Roberto Alvez|

Villani-Côrtes |ft. Roberto Alvez|

espectivamente com o prêmio para a melhor peça Sinfônica-Coral intitulada Postais Paulistanos, e com a melhor peça experimental, o Concerto para Vibrafone e Orquestra.

Aboré -O senhor também se dedicou ao ensino da música. Como foi esta experiência?

Villani-Côrtes – Dirigi por dois anos o conservatório de Juíz de Fora, depois lecionei na Academia Paulista de Música, no Instituto de Artes da UNESP e atualmente na Universidade Livre de Música. Foi uma experiência muito gratificante, muito boa. Só aprendi. É uma coisa muito interessante, é muito bom o que se aprende com os alunos. Eu costumo iniciar minhas aulas de composição a partir da análise da obra de outros compositores. Começo exemplificando com algumas peças de Bach e depois faço sugestões. Também sugiro peças de Debussy, de compositores brasileiros, falo sobre o dodecafonismo, mas não entro muito na área da música contemporânea, pois ela é imensa, vasta. Passo por estes caminhos com o aluno e incentivo-o a compor, independente de uma orientação estética. Mas é importante ter noção da estrutura das peças, principalmente das obras de Bach, pois ele é o grande chefe, ele é o aboré. Ele nos dá todas as referências necessárias sobre composição.

Aboré – Suas obras já estão catalogadas?

Villani-Côrtes Sim. Nesta catalogação, o Instituto de Artes da UNESP ajudou muito. Pois os professores tinham que fazer um relatório anual de atividades e mostrar o que havia sido feito e desse modo, fui obrigado a registrar minha produção musical. Teve uma aluna da USP, a Veronique de Oliveira Lima, que na altura foi orientada pelo Prof. Régis Duprat, que fez uma monografia em que reunia meus dados biográficos e a relação das minhas obras. Quando as pessoas precisavam de uma informação mais específica, eu recomendava o trabalho dela.
Depois um amigo inseriu algumas destas informações num site que foi elaborado para mim. (www.villani-cortes.tom.mus.br). Há dois anos, o Centro Cultural São Paulo teve um projeto patrocinado pela Petrobrás que consistiu na gravação de cinco CDs de obras inéditas de cinco compositores brasileiros comtemporâneos. Eles escolheram Almeida Prado, Gilberto Mendes, Rodolfo Coelho de Souza, Edino Krieger e eu. O meu cd foi gravado na Alemanha e o resultado ficou muito bom. Este CD veio acompanhado de um livro que continha a biografia dos compositores feita de duas maneiras, primeiramente por um biógrafo e depois por uma pessoa que tivesse uma relação mais próxima com o compositor. No meu caso, os produtores escolheram o poeta Afonso Romano de Santana, que é meu conterrâneo. Ele fez um depoimento muito curioso sobre mim e foram surpreendentes os aspectos que ele observou a meu respeito. Neste livro foi feita uma relação das obras e da discografia.

Villani-Côrtes |ft. Alexandre Dias|

Villani-Côrtes |ft. Alexandre Dias|

Aboré – No decorrer desta trajetória, o senhor teve afinidade com alguma ideologia, seja ela estética ou política?

Villani-Côrtes – Acho que a gente acaba tendo algum envolvimento ideológico sim. Quando estudei com o Camargo Guarnieri, fiquei mais influenciado pelo estilo dele, nacionalista.
Quando estudei com o Koellreutter, recebi influências do atonalismo, do serialismo integral e do dodecafonismo. Eu tenho peças dessas duas épocas com características totalmente diferentes. E algumas destas obras permanecem inéditas.

Aboré Quais foram as estréias mais marcantes de suas composições?

Villani-Côrtes – Sim. A primeira gravação de uma obra sinfônica minha foi feita no Teatro Procópio Ferreira, do Conservatório Dramático e Musical Carlos de Campos em Tatuí (SP), com a Orquestra de Tatuí. Era um concerto para piano e orquestra, eu toquei o piano e estava com 65 anos de idade. Até essa época, ninguém gravava nem tocava minhas peças, porque todos tinham seus clubinhos. Tenho uma relação de gratidão com Tatuí por isso. Em 2000, foi executada uma obra que dediquei a meu pai, Augusto de Castro Côrtes, um Concerto para Flauta e Orquestra, realizado na Saint Jones Cathedral em Londres, tendo como intérpretes Marcelo Barbosa (flauta) e a Orquestra do Covent Garden, regida por Richard Marckson.

Aboré – Como foi sua experiência ao compor trilha sonora para cinema?

Villani-Côrtes – Eu fiz uma trilha em 1968, para o filme O Matador, de Amaro César e Egídio Écio. Mas o problema de compor para cinema no Brasil, é que alguém cria um ou dois temas musicais, e depois o compositor trabalha toda a trilha e os créditos vão para quem criou os temas. Isso aconteceu com O Quatrilho, pois o Caetano Veloso fez duas músicas e o Jacques Morelenbaum escreveu tudo, fez uma trilha genial e depois saiu nos créditos que a trilha era do Caetano Veloso. Algo parecido aconteceu comigo. Na época eu precisava de dinheiro, recebi o convite para fazer a trilha de O Matador. Como estava em início de carreira, fiz todo o trabalho e não recebi nada. Recentemente fiz uma trilha para um desenho chamado Juro que vi: Matinta Pereira, de Humberto Avelar, produzido pela Prefeitura do Rio de Janeiro. Foi uma experiência interessante, esta última, pois trabalhei junto com meu filho, Ed Côrtes, que é ligado à música eletrônica e também faz trilha de filmes.

Aboré – O senhor acha que a realização do mestrado e do doutorado contribuíram de alguma maneira para as suas composições?

Villani-Côrtes – Contribuíram muito, pois pude rever conceitos e revisitar antigas composições. Como estive ligado à universidade, percebi que isso também era importante para a carreira acadêmica. Fiz o mestrado em composição na Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro e a dissertação intitulou-se O uso do sintetizador na composição musical de um Concertante para clarineta, sintetizador, piano acústico e percussão. O doutorado foi feito no Instituto de Artes da UNESP e a tese chamou-se A utilidade da prática da improvisação e a sua presença no trabalho composicional do Concertante Breve para quinteto e Banda Sinfônica de Edmundo Villani-Côrtes, e foi defendida em 1998.

Aboré – Para encerrar esta entrevista, o que o senhor teria a dizer a um estudante de música que manifestasse interesse pela composição?

Villani-Côrtes – Na hora de fazer qualquer tipo de música, seja interpretando ou compondo, ou dando aulas, você não pode ter vergonha de ser feliz. Não tenha vergonha de ser feliz. É preciso fazer aquilo que se gosta. Se você escolheu estudar música, é porque você gosta de música. Então, se você gosta é isso que deve ser feito. É a sua missão, a maneira mais agradável de deixar sua mensagem. Eu tenho seguido este exemplo e tenho me dado muito bem. Apesar de ter vários problemas neste percurso, mas justamente por fazer aquilo que gosto, sempre aparecem pessoas que compartilham isso comigo. O gosto está relacionado à sua necessidade, e a necessidade vai impulsionar o seu desejo de criação.


 

Profª. Dra. Luciane Páscoa

Doutora em História Cultural pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto (Portugal), Mestre em História História da Arte pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), licenciada em artes plásticas e música pelo Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista «Júlio de Mesquita Filho» (UNESPSP).
É professora de Estética e História da Arte e Filosofia da Arte no curso de Música da Escola Superior de Artes e Turismo da Universidade do Estado do Amazonas (UEA).

Revista Eletrônica Aboré Publicação da Escola Superior de Artes e Turismo – Edição 03/2007 – ISSN 1980-6930