Músico por intuição


 

Edmundo Villani-Côrtes . Músico por intuição

por Oscar D’Ambrosio

 

Villani-UNESP-acervo-revista

Villani-Côrtes e seus 16 anos

Compositor premiado em diversas esferas, o pianista do Instituto de Artes da UNESP ingressou na área de maneira autodidata e inovou ao unir o erudito com o popular. Pianista, regente, arranjador e compositor, o mineiro de Juiz de Fora Edmundo Villani-Côrtes gosta de frisar que a base de seu conhecimento não se deve a uma tradicional formação musical, mas a uma espécie de “informação musical”. Nascido em uma família de músicos amadores, ele aprendeu de uma maneira intuitiva. Seus estudos formais na área começariam somente aos 17 anos.

Hoje (maio, 2011), aos 80 anos, completados em novembro do ano passado, Villani-Côrtes é festejado em todo o país não somente pela competência que alcançou transitando entre o popular e o erudito, mas também pela paixão que nutre pela música e que compartilhou com seus alunos nas várias escolas onde deu aula, como o Instituto de Artes da UNESP, onde lecionou entre 1982 e 1999, até se aposentar.

As condições em casa o talharam para este caminho. Seu pai era contador e tocava flauta nas orquestras que faziam o fundo para os filmes do cinema mudo e em serestas, enquanto a mãe tocava piano. Ainda pequeno, Edmundo viu o pai ficar muito doente, o que abalou as finanças da família e fez com que eles tivessem de vender o piano. Mesmo assim a música continuou presente. O irmão mais velho tocava violão, dedilhado também pelo mais novo sempre que este tinha chance, mas Edmundo queria ter seu próprio instrumento.

Acabou ganhando um cavaquinho de brinquedo, instrumento de quadro cordas – contra as seis do violão. Como estava acostumado com o formato deste último, Edmundo aprendeu a afinar o cavaquinho de ouvido, tocando suas cordas como se fossem as últimas quatro cordas do violão. A partir daí, tentava tocar tudo o que ouvia no rádio e no cinema, de forma autodidata, no cavaquinho ou no violão.

Assim tomou contato com obras de Chopin, Liszt, Mozart, Puccini e Gershwin. Aos 17 anos, pediu aos pais para estudar piano e começou a fazer isso com uma tia, ainda em Juiz de Fora. No último ano do hoje ensino médio, enquanto os amigos estudavam para passar no vestibular, ele ficava criando músicas na sala de aula e em casa, passando para o piano os acordes que fazia no violão.

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Villaniexecuta Beethoven.1956

Acabou, porém, prestando vestibular para Direito. Foi aprovado e fez o curso, mas logo percebeu que seu mundo era mesmo a música. Tentar aliar os dois mundos, porém, não deu muito certo. O diretor da banda da cidade, da qual participava, o criticava por não ter formação musical. Ele exigia do jovem um estudo mais erudito e esperava que ele se restringisse a tocar apenas o que estava na partitura. Edmundo queria mais que isso, os dois se desentenderam, e ele acabou saindo da banda sob a acusação de desviar o comportamento do grupo com sua criatividade.

A solução encontrada foi ir para o Rio de Janeiro. Fez uma prova no Conservatório Brasileiro de Música e entrou no sétimo ano de piano, mudando para lá com o objetivo de viver de música. Formou-se em 1954, estudando, entre outros, com Guilherme Mignone, irmão de Francisco Mignone, pianista, compositor, regente e amigo de Mário de Andrade.

Nesse período, Edmundo passou a tocar na noite carioca. Sem a concorrência, hoje pesada, de gravações eletrônicas, bares e boates da época precisavam de músicos. Tocou piano na Orquestra Tamoio, do lendário maestro Cipó, no Rio de Janeiro e, em 1965, integrou a orquestra de Luís Arruda Paes, com a qual atuou até 1967.

Entre arranjos e composições

Em sua mente, na época e até hoje, não há uma separação rígida entre o erudito e o popular, tanto que começou a ganhar dinheiro acompanhando ao piano e fazendo arranjos para cantores populares como Altemar Dutra e Maysa. Na década de 1960, trabalhou em gravadoras e emissoras de TV, chegando a escrever mais de 600 arranjos para as orquestras da TV Tupi e TV Globo, do Rio de Janeiro. Na década seguinte, trabalhou como arranjador na TV Tupi de São Paulo, realizando mais de mil orquestrações para músicas de vários gêneros.

Para ele, se há uma diferença entre o compositor popular e o erudito, é a de que o primeiro, como Tom Jobim ou Ivan Lins, é um criador de canções, ou seja, de um tipo de música dividida em algumas partes que depois retorna, num ciclo. Já na música erudita, existe uma série de estruturas para formar uma canção. Há um primeiro tema, um segundo e, depois, a exploração de ambos.

Trabalhar a música erudita demanda, portanto, criar um tema e saber explorá-lo de diversas maneiras. “No meu caso, sempre fui apaixonado pela música popular brasileira, mas ao mesmo tempo também sempre gostei muito de explorar os temas e expandir ao máximo a música. É o caso do chorinho, que nada mais é do que um rondó, ou seja, um tema que vai e volta sempre dentro da música. Ele existe tanto dentro da música popular quanto da música clássica”, diz.

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Flagrante do artista trabalhando em casa, sua foto favorita

A experiência como arranjador acabou sendo um incentivo para que ele se aventurasse pela composição. A tarefa, apesar de menos rentável que a de fazer arranjos, era muito mais desafiadora, por lhe dar a liberdade de criar. Esse interesse acabava refletindo também uma tendência que ele demonstrara desde cedo de pesquisar os sons emitidos pelos instrumentos. Além disso, gostava de ouvir músicas imaginando de que modo poderia alterá-las para melhorá-las. Fazia isso, costuma dizer, não por “querer ser um compositor, mas por gostar de música”. Assim, ele deu seu primeiro passo, compondo com o violão. À medida que aumentava a complexidade de suas peças, acabou migrando para o piano.

Para ingressar com propriedade nessa seara, ele resolveu investir em aulas particulares com o célebre compositor Camargo Guarnieri (1907-1993), que tinha um método de ensino bastante peculiar, com mais ação que explicação. Villani-Côrtes sempre se recorda de quando, após tocar apenas algumas notas, o mestre pediu à turma que fizesse um ponteio, sem dizer o que era aquilo ou como deveria ser feito.

Sem muita alternativa, os alunos tentavam cumprir a tarefa. Só depois que ela era entregue, e executada por Guarnieri, é que o professor dava as instruções sobre a composição e propunha correções. Mesmo assim, ao reapresentarem o trabalho, não era raro os alunos ouvirem que ainda não estava bom. Para Villani-Côrtes, era o modo de o mestre passar adiante seu conceito de escola nacionalista, ou “música brasileira oficial”, como ele dizia.

Ele interrompeu as aulas com Guarnieri quando, já morando em São Paulo, apareceu uma oportunidade para acompanhar a cantora Maysa numa turnê pela Argentina e o Uruguai. Quando retornou, surgiram muitos outros trabalhos que o afastaram da composição.

Música de uma nota só

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Flagrante do artista trabalhando

Ele retomaria os estudos só alguns anos depois, com o consagrado maestro alemão naturalizado brasileiro Hans-Joachim Koellreutter (1915-2005), que estava de volta a São Paulo após uma longa temporada no exterior. A primeira aula de composição mais uma vez se mostrou inusitada, com o musicólogo alemão pedindo aos alunos a criação de uma música com a duração de um minuto. E com uma nota só.

Villani-Côrtes imaginou um soldado numa trincheira de guerra sabendo que estava prestes a morrer, repassando mentalmente toda sua vida no minuto que o separava da morte. Para a peça, deu o nome de “O minuto final”, pensada para ser executada por grande orquestra. A temática, porém, não agradou o professor que viera inicialmente ao Brasil justamente fugindo da Gestapo de Hitler.

Por sugestão de Koellreutter, Villani-Côrtes compôs outras músicas. Ganhou enfim a aprovação do professor com a peça “Timbres”, criada como uma trilha sonora para um filme de terror. Animado com a obra, o alemão sugeriu que o brasileiro participasse de um concurso de composição do Instituto Goethe, em 1978, chamado Noneto de Munique. Ele inscreveu uma nova peça e recebeu uma menção honrosa. Mas o que era para resultar na sua primeira aparição no exterior, acabou se tornando uma experiência frustrada.

As peças premiadas comporiam um recital na Alemanha, integrando o repertório do conjunto alemão chamado Noneto de Munique em uma turnê internacional. O instituto disse que tinha enviado a partitura de Villani-Côrtes ao grupo, mas, às vésperas da apresentação, Koellreutter avisou que tinha sido enviada uma outra partitura no lugar. O brasileiro chegou a enviar a sua, mas ela não chegou a tempo dos ensaios. A tal estreia mundial seria adiada para 2004, em uma apresentação do grupo cubano dirigido pela maestrina Elena Herrero.

Além desta, duas outras estreias de composições suas foram marcantes para o músico. Uma foi, em 1995, quando ocorreu a primeira gravação de uma obra sinfônica de sua autoria, um “Concerto para Piano e Orquestra”, no Teatro Procópio Ferreira, do Conservatório Dramático e Musical Carlos de Campos em Tatuí (SP) com a Orquestra de Tatuí. A outra, em 2000, foi um “Concerto para Flauta e Orquestra” dedicado ao seu pai, Augusto de Castro Côrtes, realizado na Saint Jones Cathedral em Londres, tendo como intérpretes Marcelo Barbosa (flauta) e a Orquestra do Covent Garden, regida por Richard Marckson.

O prêmio do Goethe também foi só o primeiro de uma série. Em 1986, por exemplo, Villani-Côrtes venceu o concurso de composição patrocinado pela Editora Cultura Musical, com a peça para violão “Choro pretensioso”. Em 1990 e 1991, foi regente da Orquestra Jazz Sinfônica do Estado de São Paulo e, em 1990, recebeu o prêmio dos Melhores de 1989, conferido pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) pela apresentação do “Ciclo Cecília Meireles”, considerada a melhor composição erudita vocal do ano.

Em 1995 e em 1998, voltou a ser agraciado pela entidade, respectivamente com o prêmio para a melhor peça Sinfônica-Coral, intitulada “Postais paulistanos”, e com a melhor peça experimental, o “Concerto para Vibrafone e Orquestra”. Em 1992, por ocasião da comemoração do centenário de nascimento do poeta Mário de Andrade, venceu o concurso da Prefeitura de São Paulo com a composição “Rua Aurora”.

Villani-Côrtes também fez duas trilhas musicais para cinema. Em 1968, para o ilme O matador, de Amaro César e Egídio Écio; e, em 2006, para o desenho animado Juro que vi: Matinta Pereira, de Humberto Avelar, produzido pela Prefeitura do Rio de Janeiro, no qual trabalhou junto com o filho, Ed Côrtes, que lida com música eletrônica.

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E. Villani-Côrtes

Revisão de conceitos

Outra faceta do músico está ligada à academia.

Afirma que o meio universitário o estimulou a rever conceitos, revisitar antigas composições e até catalogá-las. Mas a entrada nesse universo foi meio por acaso. Ao marcar uma reunião para negociar uma apresentação, encontrou dois amigos maestros e um deles lhe disse que o Instituto de Artes da UNESP, então localizado no bairro do Ipiranga, estava precisando de um professor de contraponto, disciplina que já lecionava na APM.

“Eu nem conhecia a UNESP. Fui conversar com a chefe do departamento, que me pediu um currículo e um diploma de curso superior. Apresentei o do curso de Direito, que estava encostado, mas teve seu uso naquele momento. Como não existiam concursos na época, fiz uma prova, alguns testes e fui contratado, lecionando ali até a minha aposentadoria”, lembra.

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Caminhando pela praça em frente à casa onde reside, no bairro de Jardim França, em São Paulo

O amigo pianista Roberto Bomilcar o orientou a fazer uma pós-graduação para cumprir as exigências da universidade. Os dois se inscreveram para o mestrado na Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro. “Fiz uma série de provas muito difíceis, mas, com muita sorte e estudo, fui aceito pela banca”, lembra. Seu mestrado em composição, apresentado em 1988, intitulava-se “O uso do sintetizador na composição musical de um Concertante para clarineta, sintetizador, piano acústico e percussão”.

O doutorado surgiu com uma nova oportunidade. A UNESP anunciou aos docentes que tinham mestrado que poderiam mandar uma tese para avaliação de uma banca de professores. Os aprovados se tornariam doutores, num sistema de titulação que não existe mais. O trabalho A utilidade da prática da improvisação e a sua presença no trabalho composicional do “Concertante Breve para quinteto e Banda Sinfônica”, de Edmundo Villani-Côrtes, foi assim defendido em 1998.

O ensino também é muito importante na carreira de Villani-Côrtes. Ele dirigiu por dois anos o conservatório de Juiz de Fora e depois lecionou na APM, no IA e na Universidade Livre de Música, também em São Paulo. Em seus cursos de composição, costumava começar a aula a partir da análise da obra de criadores como Bach, a quem considera o mestre em referências de composição, e Debussy. Depois pedia aos alunos sugestões. O objetivo sempre foi incentivá-los a compor, independentemente de uma determinada orientação estética.

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Trabalhando em suas composições junto ao piano

Villani-Côrtes conta que, quando jovem, compunha motivado por ouvir outras composições e saber que também poderia criar algo do gênero. “Hoje, componho cada vez com mais prazer, constantemente e para diferentes públicos: músicas para pianistas que gostam de peças complicadas, jovens ou crianças”, afirma.

Em 2010, mais de 30 recitais apenas com peças de sua autoria foram realizados em homenagem aos seus 80 anos. “Foi muito gratificante verificar novas roupagens, lindas e interessantes, de minha música, feitas por jovens interessados. Minha forma de retribuir é atender a todos os pedidos que recebo para compor, seja de um menino iniciante ou da pessoa mais importante do mundo. Em todos os casos, faço música com muito carinho”, declara.

Algumas das obras de Villani-Côrtes podem ser ouvidas nos CDs Música brasileira para canto e piano (Rio Arte, 1996) e Estados d’Alma (Sony, 1997). Compositor de obras de música orquestral, de câmara, de música instrumental e vocal, além de música eletroacústica, sua principal reflexão aos estudantes de música que manifestam interesse pela composição é que, na hora de fazer qualquer tipo de música, não tenham medo ou vergonha de serem felizes. O mesmo vale para quem prefere dar aulas de música.

“É preciso fazer aquilo que se gosta. Se alguém escolhe estudar música, é porque a ama. Portanto, é preciso fazer bem feito. É uma missão, a maneira mais agradável de deixar uma mensagem. O prazer de compor está relacionado a uma necessidade, que impulsiona o desejo de criação”, diz.

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Edmundo Villani-Côrtes . ft.Daniela Toviansky

“A pergunta não é o que o jovem pode esperar da música, mas o que ele pode esperar da vida. Ser feliz é o grande objetivo. Isso independe da profissão. Quando a pessoa for compor uma música, faça isso de alma e de coração. Faça uma música que deseje ouvir, seja música eletrônica, popular ou erudita.”


 

unespciência . maio de 2011