Villani.Datas referencias


Datas referenciais

por Irineu Franco Perpetuo

 

“O meu jeito de compor está ligado à minha vida”, afirma Edmundo Villani-Côrtes, com a singeleza que lhe é peculiar. “A composição surgiu para mim como forma de expressão. Descobri que aquelas coisas que eu tinha vontade de dizer eu ia conseguir expressar através da música”.

Esse negócio de fazer altas especulações e elucubrações sobre o fazer musical não é para ele, definitivamente. Nascido na cidade mineira de Juiz de Fora, em 8 de novembro de 1930, Villani- Côrtes atua como compositor, pianista, regente, arranjador e professor, com a naturalidade de quem sempre esteve em contato direto com a música.

Augusto chamava-se o pai, flautista, seresteiro, fã de Patápio Silva, e Augusto também era o nome do irmão mais velho, tocador de violão. O tempo era de II Guerra Mundial; Augusto, o irmão, foi para os EUA, receber adestramento militar em aviação. O instrumento ficou no Brasil, e o pequeno Edmundo começou a dedilhar as cordas do pinho do mano, à mimetizar as sonoridades que tanto o encantavam.

Ao violão, ele tentava imitar não apenas o repertório das serenatas da época, mas também as valsas de Chopin, que o pai tanto gostava de ouvir ao rádio, interpretadas por Alexander Brailowsky. De unhas fracas, Edmundo logo viu que não seria um bom violonista, e resolveu ariscar a sorte no artefato em que Brailowsky era um virtuose: o piano. Teclado em casa não havia, mas sempre se podia recorrer ao instrumento de uma tia.

Em uma época em que rareava a música gravada, pianistas eram muito requisitados. Villani-Côrtes começou a se dedicar ao instrumento aos 17 anos de idade, e logo surgiram as primeiras oportunidades de tocar nas orquestras de baile locais. Aparecem também as primeiras tentativas de compor, como uma valsa em memória de um amigo levado pela tuberculose.

Villani-Côrtes (web)

Villani-Côrtes

O primeiro passo decisivo é dado aos 22 anos, quando ele consegue aprovação para o sétimo ano do curso de piano e teoria do Conservatório Brasileiro de Música, do Rio de Janeiro. No começo, Edmundo, pianista da Filarmônica e da orquestra da rádio de Juiz de Fora, viaja constantemente entre sua cidade natal e a então capital do Brasil. Como o trajeto de ônibus lhe fizesse mal à saúde, ele resolve radicar-se definitivamente no Rio, ganhando a vida como pianista de casas noturnas, e atuando em grupos como a Orquestra Tamoio, dirigida por Orlando Costa (o maestro Cipó).

Tendo concluído, no ano anterior, o Curso Oficial de piano do Conservatório de Juiz de Fora, Villani-Côrtes estreia, em 1955, com a Filarmônica de Juiz de Fora, no Cineteatro Central de sua cidade, sob a regência do violinista vienense Max Geffer, que se refugiara no Brasil devido à II Guerra Mundial, seu Concerto nº 1 para piano e orquestra.

“Naquela época, eu não tinha tido aula de composição. Aliás, aula de orquestração com professor eu nunca tive”, relembra. A influência principal era o concerto para piano de Grieg.

É tempo de voltar a Juiz de Fora, onde ele reside entre 1954 e 1959, aproveitando o período para se formar em Direito e assumir a direção do Conservatório Estadual de Música. Em 1960, nova mudança: São Paulo, onde ele estuda piano com José Kliass (1960-63), e composição com Camargo Guarnieri (1963-65), guru dos nacionalistas da época.

“Tem gente que diz que o Camargo era bravo, xingava, mas eu me dei bem com ele”, recorda. “Ele me disse: ‘escreve um ponteio’. Eu escrevi, e ele se interessou pelo meu trabalho. pena que, na época, eu estava com muitas dificuldades financeiras. Fiz uma turnê para a Argentina com a cantora Maísa Matarazzo, e não tive como voltar para às aulas”.

Altemar Dutra foi outro cantor que contou com o acompanhamento de Villani-Côrtes em viagem por terras portenhas. Eram tempos em que o músico trabalhava até vinte horas por dia: ia-se dormir às 2h e, às 7h, já estava de pé. E que atividades eram estas que tanto o ocupavam? A de pianista das orquestras de Osmar Millani e Luiz Arruda Paes, nos anos 60; a de autor da trilha sonora do filme “o Matador”, de Amaro César e Egídio Écio, em 1968; e a de arranjador de gravações de estúdio e da extinta TV Tupi, entre 1970 e 1980. para se ter uma ideia do quanto estas atividades exigiram de Villani-Côrtes: ele calcula hoje ter escrito mais de mil arranjos, enquanto suas composições próprias são cerca de 300.

Na Tupi, ele trabalhou com o maestro Bernardo Federowski, diretor da Academia Paulista de Música, onde Edmundo ingressa em 1973, como professor de harmonia funcional e, posteriormente, arranjo e improvisação. Foram, por sinal, seus alunos de improvisação que perguntariam, em 1977, se Villani-Côrtes ficaria melindrado caso eles resolvessem tomar

Villani-Côrtes (web)

Villani-Côrtes (web)

aulas com o alemão Hans Joachim Koellreutter, que aceitara de voltar ao Brasil depois de um período na Ásia, e fora o grande e divulgador do dodecafonismo em nosso país.

De uma curiosidade incansável, Edmundo não apenas liberou seus alunos para estudarem com Koellreutter, como ainda, com entusiasmo, se juntou ao grupo de estudantes. Do período de estudos do compositor com o antípoda de Camargo Guarnieri, resultou seu Concerto nº 2 para piano e orquestra, em linguagem atonal, que permanece inédito; e ainda o Noneto de Munique (1977), com elementos serialistas, que valeu a Villani-Côrtes sua primeira láurea internacional de destaque, no Concurso Noneto de Munique, realizado pelo Instituto Goethe. Embora a execução da peça estivesse prevista como parte da premiação, a estreia da obra só ocorreria em 2004, no Teatro Municipal de São Paulo.

Ele encara com naturalidade ter estudado com Guarnieri e Koellreuter, cujas tendências estéticas são habitualmente vistas como opostas, tendo sido objeto de acerba polêmica nos anos 50: “comigo não tem isso de vou compor na escola tal’. Eu não tenho ‘fase’. AIiás, não consigo entender isso de fase, escola, etc. Você usa a ideia musical de acordo com o gosto, intenção, etc. Ficar aguilhoado a uma só coisa não faz sentido”, afirma Villani-Côrtes, cuja produção costuma se orientar no sentido de uma linguagem tonal, “acessível” e em constante diálogo com a música popular.

Foi a partir dos 50 anos de idade que ele começou a se dedicar à composição de maneira mais sistemática. Para tanto, contribuíram o fim da TV Tupi, que lhe retirou a atividade de arranjador, e o convite para lecionar contraponto e composição da Universidade Estadual Paulista (Unesp). A remuneração, agora, era menor do que nos tempos dos arranjos, mas sobrava tempo para criar música.

Os alunos e colegas da Unesp logo lhe inspiraram uma original série de música de câmara: as “Sete folhas do diário de um saci”.

O compositor recorda, com carinho, do dia em que lhe pediram uma peça para violoncelo e contrabaixo, para ser entregue dali a dois dias. Foi esta a “Sétima folha do diário de um saci”, a partir da qual ele resolveu fazer as outras. O saci é o próprio Villani-Côrtes: “ele tem que fazer com uma perna só tudo o que os outros seres fazem com duas. E a vida do compositor brasileiro é assim. Se eu morasse na Alemanha, receberia as encomendas com um ano de antecedência. Mas, no Brasil, é tudo em cima da hora”.

Villani-Côrtes (web)

Villani-Côrtes (web)

E, enquanto ele concluía o mestrado em composição na Escola de Música da UFRJ (1985-88, com a dissertação “O uso do sintetizador na composição musical de um Concertante para clarineta, sintetizador, piano acústico e percussão”), sob orientação do maestro Henrique Morelenbaum, o catálogo de obras ia engrossando, e os prêmios, chegando: Concurso Feira Livre de MPB (1981), realizado pela TV Cultura de São Paulo, que o escolheu para representar o Brasil como regente, arranjador e compositor no 10º Festival da OTI, realizado na Cidade do México; Concurso de Composição da Editora Cultura Musical (1986), em São Paulo, com o Choro Pretensioso, para violão solo, em 1º lugar, e a Ritmata nº 1, para piano solo, em 2º lugar; Concurso Mário de Andrade e (1993), do Centro Cultural São Paulo, para celebrar o centenário do autor de Macunaíma, vencido com a canção Rua Aurora; e o terceiro lugar no II Concurso Nacional de Composição para Contrabaixo, da Escola de Música da Universidade Federal de Minas Gerais, em 7996, com Chorando, para contrabaixo e piano.

Villani foi ainda pianista do programa televisivo Jô Soares Onze e Meia, e regente da orquestra Jazz Sinfônica. Aposentou-se na UNESP em 1999 e leciona, hoje, composição, no Centro de Estudos Musicais Tom Jobim, dedicando-se ainda a atender ao crescente número de encomendas de obras novas. Caudaloso, seu catálogo destaca um Te Deum de 1999, duas sinfonias, três concertos para piano e obras concertantes para quase todos os instrumentos possíveis. “Dos instrumentos de orquestra, só não escrevi concerto para harpa, fagote e tuba”, afirma. Para o piano, ele compôs cerca de um quarto de suas obras, entre choros, sonatas e ponteios.

Na música vocal, além das canções, destaca-se uma série de três cantatas documentando textos-chave da História do Brasil no século XX. (AI-5, Carta da renúncia de Jânio Quadros e Carta-Testamento de Getúlio Vargas, todas de 2000), e Poranduba, ópera em um ato com libreto de Lúcia Góes, em fase final de instrumentação. Obras todas elas criadas a mão, na caligrafia musical aprimorada nos anos da “linha de montagem” dos arranjos para televisão.


Irineu Franco Perpetuo, jornalista, é coautor, com Alexandre Pavan, de “Populares & Eruditos” (Editora Invenção, 2OO1), e autor de “Cyro Pereira, maestro” (DBA Editora. 2OO5).


Artigo da coletânea “Música Contemporânea Brasileira – em Registro na Discoteca Oneyda Alvarenga” Centro Cultural São Paulo – álbum E. Villani-Côrtes . 2006